Artigo
O “trem” do Senado
O Senado, definido como o poder moderador desde o tempo do Império, acaba de produzir mais uma página que contradiz a sua essência. A criação de 97 cargos de assessor, com salários de quase R$ 10 mil mensais, é tão absurda que o próprio presidente da Casa, líderes partidários e outras figuras influentes do meio, pelo menos em público, abrem fogo contra a medida. O cargo é tão dispensável que, se quiser, o senador - que já tem seis assessores nesse nível - pode dividir a verba e contratar quatro de R$ 2,5 mil mensais. Se todos o fizerem, o “trem da alegria”, em vez de 97, levará 388 felizes passageiros embarcados sem concurso nem qualquer outra exigência. Bastará ser portador do malfadado QI (quem indica).
Assim que a decisão da mesa diretora foi anunciada, praticamente todos os senadores alcançados pelos jornalistas posicionaram-se contrários à nova gastança. A medida surgiu como a estória da criança feia que “não tem pai”, pois o autor da façanha procura esconder-se. Embora, lamentavelmente, tenham todas as condições legais para contratar, os senhores senadores devem estar cientes de que isso não contribui em nada para as atuais necessidades do país e muito menos do povo a quem têm o dever de representar.
Desde os tempos do Rio-maravilha, comenta-se a contumaz postura dos políticos – influentes ou não – nomearem seus parentes, cabos eleitorais e financiadores de campanha para cargos regiamente remunerados. Diz-se que o Senado, principalmente, se um dia convocar todos os seus funcionários, não disporá de espaço físico para abrigá-los e, muito menos, conseguirá provar a necessidade de tanta gente pendurada nas tetas do poder. Além dos nomeados diretamente em funções de assessoria, também existem os funcionários “de carreira”, cuja entrada, um dia, foi facilitada por seus padrinhos poderosos.
Para saírem do Rio, há mais de 40 anos, funcionários, servidores e assessores receberam vantagens funcionais e pecuniárias que tornaram atrativa a troca do maior ponto turístico do país pela então inóspita Brasília. Só que Brasília emancipou-se e as vantagens continuam inexplicavelmente agregadas à sua casta pública.
Desde os tempos imemoriais há casos de assessores ou assimilados que recebem mas não trabalham, do nepotismo e do favorecimento. Tudo pago pela violenta carga de impostos cobrada da população. O escândalo de hoje parte do Senado, mas ocorre o mesmo na Câmara dos Deputados e em toda a estrutura do Governo.
O melhor que os senadores fariam é desistir da contratação dos 97 (ou 388) novos assessores. Poderiam ainda usar seu poder político para promover as reformas admnistrativa e tributária e livrar o povo de pelo menos uma parte do pesado fardo em que se transformou a máquina pública.
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – diretor da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) - aspomilpm@terra.com.br