Haraquiri Político
Por José Inácio Werneck
Bristol (EUA) – Barack Obama, filho de um estudante universitário queniano - que depois abandonou sua namorada branca (os pais de Obama nunca se casaram) e morreu em um desastre automobilístico em sua terra natal - foi criado, sem muitos recursos, em parte por sua mãe e seu padrasto indonésio e em parte por seus avós maternos.
Apesar desse início pouco promissor, formou-se em Ciências Políticas pela Universidade de Columbia, colou grau de Doutor em Direito, magna cum laude, pela Universidade de Harvard, foi o único negro eleito presidente na história da Harvard Law Review, foi professor de Direito Constitucional na Universidade de Chicago, senador estadual em Illinois, senador federal pelo estado de Illinois, selecionado, por sua eloqüência, para fazer o discurso principal (key-note speech) na Convenção Nacional do Partido Democrático, em 2004, que escolheu a chapa John Kerry/John Edwards para concorrer à Presidência da República. Lidera no momento as primárias democráticas para a eleição presidencial de 2008, em votos populares, em número de estados e em número de delegados.
Um impressionante currículo, dirão todos. Ou quase todos. Geraldine Ferraro, Assessora Especial, integrante do National Finance Committee da campanha de Hillary Clinton e nomeada durante a administração Bill Clinton embaixadora na ONU junto à Comissão de Direitos Humanos, disse aos jornais que Barack Obama chegou onde está no momento “apenas por ser negro”. Em outras palavras, por receber tratamento especial. Criticada por suas palavras, declarou-se vítima de um “racismo ao contrário”.
Mas é lícito perguntar: Hillary Clinton chegaria onde está hoje se não fosse do sexo feminino, branca, casada com o poderoso e igualmente branco politico Bill Clinton, Presidente da República de 1992 a 2000?
Geraldine Ferraro é uma advogada e líder feminista que no passado teve sua carreira política amparada pelo influente congressista branco Tip O’Neill, Speaker of the House. Nas asas de uma campanha para colocar uma mulher na Casa Branca, foi candidata a Vice-Presidente da República na chapa democrática na eleição de 1984, com Walter Mondale. Chapa tão fragorosamente derrotada pela dupla republicana Ronald Reagan-George Herbert Walker Bush que venceu em apenas um estado (Minnesota, onde Mondale nasceu) entre os 50 estados americanos. A chapa foi derrotada até em Nova York, estado natal de Geraldine Ferraro e tradicional bastião democrático.
Na época, revelou-se que Geraldine Ferraro e seu marido tinham sérios problemas com o Imposto de Renda e que seus pais, imigrantes italianos, tinham sido processados por exploração de jogos de azar (o processo foi abandonado com a morte do pai).
As contas mostram que Hillary Clinton só ganhará mais delegados do que Obama se, nas primárias restantes, conseguir um total de 65 a 70% dos votos, tarefa que a ela será mais difícil do que a seu marido foi negar o affaire com Monica Lewinsky.
Daí, o jogo bruto que vem sendo praticado pela campanha de Hillary. Esta última investida foi uma acintosa exploração do racismo infelizmente ainda existente no eleitorado branco de menor poder aquisitivo (os “white blue-collar workers”) que se alinha com o Partido Democrático em estados como a Pensilvânia, onde acontecerá a próxima primária.
Esta semana, Barack Obama ganhou folgadamente em mais uma primária, a de Mississippi, embora outra vez eleitores republicanos, com a permissão de estranhas regras, tenham comparecido para votar em Hillary Clinton. O que os motiva? O fato de que as pesquisas de opinião mostram que Hillary perderia a eleição presidencial de novembro para John McCain, por causa de seu alto índice nacional de rejeição.
A sede de poder do casal Clinton é insaciável. Hillary não se conforma em não ser escolhida e apela para os superdelegados. Mas se o Partido Democrático a escolher, estará cometendo haraquiri político.
José Inácio Werneck: Jornalista e escritor, com passagem em órgãos de comunicação do Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou “Com Esperança no Coração: Os Imigrantes Brasileiros nos Estados Unidos”, estudo sociológico, e “Sabor e Mar”, novela. É interprete Judicial do Estado de Connecticut.